“A Uni-CV foi a minha segunda casa durante quatro anos”, quem diz é o ex-estudante da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Uni-CV, Mestre Keven David Moreira Gonçalves. Natural da Cidade de Assomada, fez os seus estudos no liceu do Amílcar Cabral. Ingressou na Licenciatura em Engenharia Química e Biológica na Uni-CV e conta-nos que guarda boas recordações dos 4 anos de estudos na Universidade de Cabo Verde. Graças ao conhecimento adquirido no curso de Engenharia Química e Biológica, não teve problemas em continuar os estudos no Brasil, tendo como resultado uma pesquisa sobre as ocorrências de aflatoxinas B1 e M1 no leite em pó e UAT consumido em Cabo Verde e na região sul do Brasil.

Da Uni-CV ficou-lhe, na memória e no coração, as amizades que aqui fez e a excelente relação que manteve com a maioria dos professores, guardando consigo até hoje competências fundamentais que aqui adquiriu, como a capacidade de trabalho e de resiliência, que lhe permitem superar os vários desafios com que se vai confrontando no seu dia a dia.

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Uni-CV: Qual o motivo que o levou a estudar na Uni-CV?

Keven Gonçalves: Uni-CV foi o único lugar que me pude encaixar. Terminei o ensino secundário e não consegui estudar fora, porque não tinha nota para tal. Aproveitei e fiz o teste de acesso. Na altura, isso era a única coisa que me facilitava. Entrei quando ainda universidade estava recém-criada, então quis apostar nos estudos aqui.

Uni-CV: O curso correspondeu as suas espetativas?

KG: No princípio não correspondeu, porque esperava mais da parte prática. Em relação à parte teórica, toda a teoria que poderia receber no mundo eu recebi aqui. Faltava, contudo, a parte prática, como se trata de engenharia precisamos de um pouco mais de prática. Mas em termos de professores, de aulas, tudo foi de acordo com o que é dado em outros lugares.

Uni-CV: Porquê do curso Engenharia Química e Biológica (EQB)?

KG: O que me levou a fazer EQB foi porque percebi que o engenheiro pode criar. Então foi isso: o poder de criar! O engenheiro pode criar qualquer coisa; pode criar remédio, antibióticos, bebidas. Cheguei no Brasil e fiz um curso de cervejaria artesanal, hoje sou um mestre cervejeiro. Na passada sexta feira comecei a primeira produção de cerveja artesanal em Cabo Verde. Foi graças à formação que recebi que entendi todos os métodos e hoje posso fazer a minha própria cerveja, mas claro que só eu é que posso beber, ainda não posso colocar no mercado.

Uni-CV: O que mais o marcou durante o seu percurso na Uni-CV?

KG: O que mais me marcou foram os colegas, o pessoal que me rodeava, os professores, aquela brincadeira, mas sempre respeitando as horas sérias. Então eu acho que em qualquer parte do mundo são as pessoas que te rodeiam que te dizem o que és e o que vais ser.

Uni-CV: Qual conselho/apelo deixa para os alunos do curso de EQB?

KG: Estudem! Respeitem os professores, porque eles sempre querem o melhor para nós. E tentem mudar o que eu não consegui. Eu queria que o meu curso fosse um curso mais prático, com mais congressos, mais saídas. Acho que os estudantes têm esse poder e não devem esperar só pelo coordenador ou a Reitora, o próprio estudante tem o poder de mudar o seu curso.

Uni-CV: Como avalia o mercado de trabalho, nessa área, aqui em Cabo Verde?

KG: Em Cabo Verde os engenheiros que se formaram na minha época, acho que poucos, foram para a indústria, é uma área que é bastante deficitária em termos de recursos humanos. Temos que incentivar a criar algo, criar industria ou mais áreas ligadas a alimentos e tal, sei que é difícil, mas pelo menos deve-se tentar.

Uni-CV: Porque escolheu o Brasil para fazer o mestrado?

KG: Poderia ser outro lugar. Poderia ser Portugal, China ou Rússia, mas na época estava pegando o que aparecesse. No meu projeto de licenciatura trabalhei com queijo coalho, então ia dar continuidade nos estudos que tinha iniciado. Ficar nessa área de alimentação foi muito bom e o Brasil ofereceu-me isso, pude aumentar o meu nível académico através do que eu gostava de fazer.

Uni-CV: Qual foi a experiência?

KG: Foi muito bem aproveitada e foi tensa. Nem sempre acontece como é falado aqui, sofri coisas que ninguém sofreu. Sofri racismo, não tenho como negar isso, mas por outro lado existiam pessoas que me queriam bem. No laboratório, fui recebido como um membro da família. Foram eles que me ajudaram a chegar onde estou hoje.

Uni-CV: Decorrente da sua apresentação, temos um controlo da qualidade muito fraco e isso tem uma repercussão na saúde pública. Qual é a sua opinião sobre o controle de qualidade dos produtos?

KG: Só fazemos controlo de qualidade dos alimentos que consumimos, mas podia ser melhor, podia ser análise dos alimentos que mais estamos em contatos. Analisar cada alimento, tentar criar alguma lei, pois só com a lei é que podemos mudar esses males que os alimentos provocam. O governo, alguns ministérios, deviam focar-se mais na área da alimentação porque nós somos o que comemos, não podemos comer comida contaminada sem saber.

Uni-CV: Quais os próximos planos?

KG: O próximo plano era descansar, já descansei e agora estou ativo de novo. O próximo plano é tentar inserir-me no mercado de trabalho porque passei de estudante para desempregado, e logo de seguida continuar os estudos. Já tenho proposta para analisar micotoxina em queijo coalho de cabra, já que produzimos queijo temos que ver se esse queijo também tem esses contaminantes. Resumidamente, o próximo passo é trabalhar e seguir com a vida.  

Uni-CV: Como define a Uni-CV?

KG: É bem difícil para mim, a Uni-CV foi a minha segunda casa durante quatro anos.

Uni-CV: Recomenda mais estudos do género daquele que fez?

KG: Recomendo não só do género, como também outros estudos. Podemos analisar o milho que produzimos aqui, porque produzimos o milho de uma agricultura que não tem controlo, é o tempo que nos diz qual é a altura da colheita e as vezes encontramos milho com essa micotoxina. Podemos analisar o ovo também, a produção do ovo aqui é deficitária, o amendoim, enfim há uma série de alimentos que devem ser analisados aqui em Cabo Verde. Cabo Verde é uma caixa de surpresas e é rica ao mesmo tempo, não estamos a desenvolver estudos que possamos criar economicamente, como também não estamos a ser vistos. Desenvolvendo estudos e serem publicados em revistas internacionais vamos ser vistos e Cabo Verde vai aparecer no mundo.

Uni-CV: Há algum professor que marcou o seu percurso académico?

KG: Sim! A profª Sandra Freire a quem agradeço muito. O prof. António Gomes que foi um grande amigo, não há palavras para o definir. Os professores Osvaldo Ortet, Tomás, Brandão, existem professores… Se começar a citar aqui vou citar todos os professores do curso de EQB.

Uni-CV: Se tivesse que escolher um novo curso de licenciatura, qual seria?

KG: Era para ser engenharia alimentar, mas já foi. Então assim fica meio difícil, mas talvez a Engenharia Naval.